RESENHA HISTÓRICA

 

Situada numa região de terras delgadas, a Meia Via, sempre fez parte da freguesia de Santiago.

Era uso dizer-se que " as terras da Meia Via não aguentam água nem sol", - eram pobres, por fracas, como pobres foram os meiavienses e os seus remotos antepassados.

Tal pobreza nunca foi, no entanto, impedimento definitivo para os meiavienses que, ao longo dos tempos, se habituaram a serem eles próprios os construtores dos meios para melhorarem as suas vidas.


Nos primórdios instalaram-se em casais, unidades de povoamento antigo, de que são testemunho as denominações de muitas das nossas localidades.

Nas tais terras pobres, os nossos antepassados, calcorrearam léguas, arrotearam geiras, mediram alqueires e almudes, beberam quartilhos e canadas, abriram palmos de poços, regaram à picota e ao cabaço, produziram adobos, tijolos e telhas.

Desenvolviam assim as actividades agrícolas e artesanais próprias de cada época, em jornadas de canseiras intermináveis.

Uma vez no ano, por altura do solistício do Verão, era tempo de alegria.

Reunidos os casais, sacrificavam uma rês, mais tarde apelidada por boi danado, que depois comiam em bodo colectivo, cantando e dançando cantos e danças de agradecimento à mãe natureza por boas colheitas de azeite, vinho e pão e gados saudáveis na criação.

Foi assim, pelo menos, até aos meados do século XVI.

Quando este conjunto de casais do "Espargal", antiga povoação que depois veio a chamar-se Meia Via, onde, reza a lenda, teriam os cingeleiros de Riachos encontrado a imagem do Sr. Jesus de Santiago, demonstrava já alguma pujança, ergueram a ermida de Na Sra. de Monserrate e surge a primeira referência à Meia Via num pergaminho de cariz religioso datado de 6 de Agosto de 1668.

O ritual de sacrifício do boi danado, evento religioso-pagão fora então adaptado e integrado no calendário litúrgico católico, nascendo desse facto os festejos em honra do Divino Espírito Santo, que perduram nos nossos tempos.

Não é, portanto, conhecida a data exacta em que a Meia Via ganhou esta denominação, mas pensa-se que ela provém do facto da povoação estar situada a meio
caminho na estrada real de ligação Lisboa/Coimbra e possuir um poço público (actualmente quase completamente destruído) onde as caravanas paravam para descanso de homens e bestas (in "Mosaico Torrejano" de A. Gonçalves, pág. 228).

No início do século XIX, viviam e subsistiam os meiavienses na base do cultivo de pequenas parcelas agrícolas e da exploração dos baldios existentes na Charneca e arredores,
quando foram espoliados de madeiras e lenhas pelo então administrador concelhio de Torres Novas.

Descontentes e indignados, apresentam reclamações e petições à Casa Real, conseguindo, com a sua pertinácia, despacho favorável à divisão dos referidos baldios pelas famílias, fugindo por este meio ao controlo e usurpação exercidos pela administração torrejana, constituindo-se em proprietários agrícolas, conseguindo assim mais um meio de subsistência.

Ainda nesse século foram, instituída a escola oficial local e fundada a Sociedade Filarmónica Euterpe Meiaviense.

O século XX chegou e trouxe consigo a decadência do regime monárquico.

Por entre lutas políticas de monárquicos e republicanos foi construído o cemitério de Meia Via em 1909, com fundos recolhidos por subscrição pública para a qual contribuíram as populações de quase todos os lugares da freguesia de Santiago.

Em 1910, cai a monarquia.

A burguesia emergente em Meia Via, partidária da República, afirma-se pelo fortalecimento do ensino local; abre a escola às raparigas e funda o Grupo de Recreio Musical Meiaviense (TUNA) e a biblioteca, ambos funcionando no Teatro Maria Noémia, construído nos anos 1924 e 1925 e inaugurado em 1926.

Ficaram célebres as récitas e bailes dos anos 30 na Tuna.

É durante este período, de lutas políticas entre velhos adeptos monárquicos e republicanos vitoriosos motivados para a fundação da freguesia de Meia Via, que se
assentua a divisão entre as populações de Meia Via, onde imperava a causa republicana, e os Pintainhos, Carreiro de Areia e Gateiras, ao ponto de até aos nossos dias, as famílias destas últimas localidades se recusarem a sepultar os seus mortos no cemitério de Meia Via, que eles próprios ajudaram a pagar.

Foi o fim de qualquer tipo vivência em comum que até aí possa ter existido.

Foi o culminar das lutas políticas de então que impediram a Meia Via de ser freguesia ainda antes dos anos 30.
Apesar das contrariedades os meiavienses sempre conseguiram manter a sua capacidade de lutar, de festejar, de aprender, de se cultivar, de trabalhar, de assegurar as tradições e sobretudo de amar a sua terra. No entanto, salvo raras excepções, os meiavienses continuaram sendo, essencialmente, trabalhadores rurais e pequenos proprietários até à II Guerra Mundial.

Só no princípio da década de 50, com o enorme desenvolvimento da indústria ferroviária no Entroncamento, e dos têxteis e lanifícios, do papel, da metalomecânica, da destilação e dos transportes rodoviários em Torres Novas, tanto umas como outras reclamaram essa mão de obra não qualificada, que de rural, se transformou em industrial.

Assim, os rurais e seus filhos transformam-se em operários, e, por sua vez, os filhos destes, já com formação técnica escolar, em operários qualificados e empregados dos serviços.

São, sobretudo estes jovens operários e empregados que, em 1956, fundam o Clube Desportivo Operário Meiaviense na ânsia de poderem praticar o futebol e o ciclismo.

Nos finais desta década, em plena época de transição e melhoria social dos meiavienses, acontece o facto mais triste e penoso da nossa história.

Um grupo de meiavienses, talvez bem intencionados, mas mal formados, decidiram destruir, em vez de conservar, a ermida de N8 Sra. de Monserrate, templo ao estilo rural anterior ao século XVII, com interior revestido a azulejo dessa época e altar em talha dourada.

Daquele belo e simultaneamente humilde templo restam o cruzeiro e a colecção de azulejos posteriormente aplicados na capela da Sra. do Vale em Torres Novas e actualmente classificados de interesse público.

Com o 25 de Abril, já na década de 70, novas perspectivas se abriram, e, uma vez mais, os meiavienses acreditaram e conseguiram, mais rapidamente do que parecia possível, assegurar o abastecimento público de água ao domicílio e o saneamento básico da aldeia.
Revigoraram as colectividades existentes e ainda tiveram tempo para fundar a Sociedade Columbófila Meiaviense, construir um posto médico, um jardim de infância, um mercado de frescos e iniciar a construção do Centro Social do Divino Espírito Santo.

Chegados aos nossos dias, mesmo sabendo que há ainda muito por fazer, pode dizer-se que, enquanto meiavienses, sempre estivemos atentos ao progresso, e somos, de uma maneira geral, relativa e saudavelmente felizes.

Quando falamos, genericamente, das potencialidades de Meia Via, não nos referimos a meras abstracções.

Se atentarmos um pouco à geografia vamos encontrar esta aldeia situada no exacto limite do perímetro urbano da cidade do Entroncamento, a 100 metros do nó do IP6 que liga à A1 na portagem de Torres Novas, a 2.000 metros da estação ferroviária da cidade primeiramente citada e a igual distância do parque multimudal de Riachos, em construção.

Podemos, portanto afirmar, sem perigo de nos enganarmos, que: a Meia Via, primeiramente situada no eixo Torres Novas / Entroncamento, está no centro do País, desfruta dos melhores equipamentos e infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias existentes; está, por isso, perto de tudo, em todas as direcções.

Por outro lado, apesar de novamente se falar do já antigo triângulo Torres Novas, Abrantes, Tomar, onde nos integramos também, talvez fosse de bom tom pensar de forma mais ampla e reparar que o fulcro, a zona nevrálgica, de uma qualquer outra figura geométrica formada por linhas de conexão de Alcanena, Abrantes, Santarém e Tomar, é precisamente o eixo Torres Novas / Riachos, Meia Via / Entroncamento, localização do grande cruzamento das vias Norte / Sul ( Caminhos de Ferro e A1 ) e Leste / Oeste Caminho de Ferro e IP6 ).

Ainda mais. Não podemos nem devemos esquecer, ou ignorar, que estamos a uma distância de 100kms relativamente a Lisboa apenas a 70 da costa marítima, na Nazaré e a 20 do enorme reservatório de água que é sem dúvida, a Barragem de Castelo de Bode.

É neste contexto geográfico que se situa a Meia Via, ocupando uma extensão territorial de cerca de 5km2, sofrendo de pressões, económicas e de expansão urbana por
parte da cidade do Entroncamento, e políticas por parte da vila de Riachos que já afirma publicamente querer ser concelho e olha, eventualmente para a Meia Via como a sua continuação, a norte da Estrada Nacional N.° 3.

Assim, se não for fundada a nossa freguesia, a Meia Via pode ser encarada como "terra de ninguém", já que, ao mesmo tempo que é pressionada do exterior, Torres Novas, sede do nosso concelho, pouco tem feito para ajudar esta terra, que à tantas décadas procura afirmação, a ganhar a sua própria personalidade político-administrativa e assegurar o caminho, em direcção ao desenvolvimento global sustentado, que o PDM lhe traçou e não se rejeita.