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IGREJA MATRIZ |
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A IGREJA MATRIZ
As
despesas da obra, tal como era costume do rei
"Venturoso". Correram a cargo dos goleganenses, que não
foram dispensados da sua obrigação de contribuir, em
justa proporção. A nova igreja nascia graças ao sonho do
monarca e ao esforço do povo. Mas depois de concluída,
as opiniões convergiam: o templo honrava todos os
Goleganenses.
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Vasta e com grande relevo arquitectónico, o templo
satisfazia as aspirações reais e as necessidades
religiosas do povo. Muito ampla, duas arcadas ogivais,
de elegantes linhas, dividem com majestosa simplicidade
o largo espaço limitado pelas suas paredes de cantaria,
delimitando ainda as três naves. A capela-mor alonga-se
para além de um arco monumental, onde o chamado estilo
manuelino traduz o propósito de honrar diversamente,
pelo esplendor e pela profusão ornamental, os dois
recintos contíguos: o que se destina à multidão dos
fiéis e o que pertence apenas a Deus e aos seus
ministros.
Na parte exterior, a porta principal
ilustra bem a capacidade inventiva dos arquitectos da
época, assim como o adestrado cinzel dos canteiros.
Esculpida como uma preciosa peça de ourivesaria, essa
"porta-monumento" abre-se graciosamente com três arcos
policêntricos, sobre os quais se alarga o tímpano que
enobrece o conjunto. Da profusa decoração dessa porta
ressalta a rosácea que a sobrepõe, abrangendo quase toda
a fachada. Merece uma atenção especial também o nicho da
padroeira, Nossa Senhora da Conceição, e dois pequenos
óculos que o ladeiam, um conjunto que aliado às pedras
esculpidas forma uma espécie de jardim de singulares e
floridos canteiros. No alto desse tímpano vêem-se duas
cruzes exuberantes de Cristo. Nas duas portas laterais,
os lavores da arte manuelina exaltam os triunfos e a
glória dos portugueses na época em que a igreja foi
construída.
Mas a acção do tempo e do homem iria
lentamente encarregar-se de descaracterizar uma
magnífica igreja, que tanta glória e fama trouxe a esta
região. Desaparecidas as gerações que tinham assistido à
construção do grandioso templo, e que tanto o tinham
admirado e preservado, seriam os primeiros sinais de
envelhecimento do edifício a despertar a atenção da
autoridade paroquial para uma acção de preservação de
tão valioso património.
Mas as obras de reparação redundaram
em "obras de deturpação"... as reparações, na maioria
dos casos, seguiam uma lógica, não de preservação e
manutenção da traça original, mas de subordinação ao
próprio gosto dos administradores eclesiásticos, à
opinião de eventuais conselheiros ou até aos interesses
dos artífices que faziam as reparações.
Assim, desde que o custo dos
trabalhos não excedesse o orçamento previsto, nada
detinha ou limitava a imaginação da administração
paroquial do templo. E, ao longo dos séculos, o gosto
paroquial foi muito influenciado pela prosperidade da
vida local, o que influenciou negativamente as diversas
reparações ao longo dos tempos. |
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Na Igreja Matriz da Golegã, como na
maioria dos monumentos que o passado nos legou, os
reformadores/conservadores mais activos, nunca souberam
apreciar, nem sequer distinguir, os valores artísticos
do edifício quinhentista. Estes nada pareciam
significar... assim, de ano para ano, depois de
terminado o século XVI, o precioso templo foi-se
"abastardando". Mas em todo o caso, se é certo que a
integridade estética do monumento sofreu, em várias
épocas, atentados graves e por vezes imperdoáveis, não
se pode em verdade acusar os Goleganenses de terem
abandonado à ruína a sua igreja matriz, de que tanto se
orgulharam ao longo dos séculos.
0 Monumento conheceu os perigos do desamparo durante um
período muito curto, durante o qual a Golegã atravessou
uma época de decadência, provocada pela construção da
nova estrada que no reinado de D. Maria I se abriu entre
Leiria e Pombal, desviando-se assim para a zona
ocidental da província a principal via de comunicação
que ligava Lisboa e o Porto. A Golegã, que sempre
soubera aproveitar a sua situação geográfica junto da
antiga "estrada real", sentiu profundamente esta mudança
viária. Mas surgiria um novo fôlego económico e social
com a inauguração do caminho-de-ferro do Norte, cujo
traçado beneficiou as povoações do coração do Ribatejo.
Com esta nova via de comunicação
punha-se fim a um período de desânimo geral, que tinha
afectado a vida local em todas as suas vertentes, até
mesmo ao nível da conservação dos monumentos. A Igreja
Matriz também se ressentiu desse período.
Um dos pontos culminantes da história
deste templo ocorreria em 1942, quando a Direcção Geral
dos Edifícios e Monumentos Nacionais sentiu
imperiosamente o dever de a dotar novamente de toda a
sua génese histórica, restituindo-lhe toda a graça
original e todos os direitos senhoriais que, no campo da
arte, lhe tinham sido usurpados ao longo dos séculos.
Apesar do corpo do edifício estar
são, o seu espírito estava contaminado por males já
antigos, perdendo de ano para ano o seu brilho e
domínio. Herdeiro do nobre orgulho e da enorme fé dos
valorosos homens da era de Quinhentos, o admirável
templo vira-se, pouco a pouco, lesado na sua vertente
artística que fortalecia a sua unidade espiritual. Tal
como tinha sucedido em quase todos os monumentos
religiosos, os principais atentados arquitectónicos e
artísticos de que foi vítima a Igreja Matriz da Golegã
datam dos séculos XVII e XVIII, período em que
proliferavam por todo o país uma verdadeira legião de
"beneméritos" de infatigável actividade, os quais se
arrogavam o direito de tudo melhorar e que, afinal, tudo
corromperam. Mas no caso da igreja da Golegã, os danos
não tiveram a dimensão de muitos outros lugares.
No entanto, foram numerosas, e de
diversa natureza e responsabilidade, as obras efectuadas
na Igreja Matriz da Golegã pela Direcção Geral dos
Edifícios e Monumentos Nacionais. Em 1942, a actividade
desenvolvida por esta entidade visou as seguintes
intervenções • Demolição parcial de
uma dependência de construção recente, e sem qualquer
valor artístico, que entaipava uma das janelas da
capela-mor (lado sul). • Demolição do
adro que na época moderna se improvisara em frente da
Igreja, e reconstituição do que anteriormente existira,
com os seus muros e serventias, depois de elevado ao
nível primitivo, por meio de um alto e largo aterro.
• Apeamento do inestético e avantajado coro, que
encobria uma quinta parte das naves. •
Apeamento de quatro altares de madeira que
inapropriadamente se haviam embutido nos topos das naves
laterais, e entaipamento dos rasgos para tal fim abertos
nas respectivas paredes. |
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• Apeamento do altar de madeira,
pintado de branco, que na capela-mor substituíra o altar
primitivo, e reconstituição deste, em conformidade com o
estilo e o uso da época. •
Reconstrução completa da armação dos telhados e
cobertura de toda a Igreja, em harmonia com o carácter
do edifício. • Rebaixamento e
lajeamento do pavimento de toda a Igreja, sem excepção
da capela-mor, sacristia e anexo. •
Demolição do coroamento com que se havia
descaracterizado a torre sineira, sua substituição por
outro, de feição primitiva, reconstruído segundo o
estilo do templo e com o auxílio de alguns elementos
encontrados durante as obras.
• Apeamento da guarda de madeira do púlpito e
reconstituição da que anteriormente existira, com
utilização dos respectivos elementos, que se encontraram
nas escavações. • Picagem de todo o
reboco interior e exterior, e sua substituição por outro
revestimento apropriado. •
Reconstituição da janela geminada e moldurada da
capela-mor (lado Sul), que fora parcialmente mutilada e
entaipada por efeito da dependência que ali se
construíra. • Reconstrução parcial dos
remates dos coruchéus da capela-mor. •
Reparação complementar do revestimento de azulejos de
toda a mesma capela. • Consolidação
dos apilarados moldurados das portas laterais e
colocação dos respectivos degraus. •
Colocação de vidraças coloridas, com armação de ferro e
chumbo, nas rosáceas, janelas e frestas.
• Lavagem geral das cantarias, com o refechamento das
juntas dos pilares, contrafortes, ornamentações e
paramentos das paredes, internos e externos.
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Apesar das dificuldades, um ano
depois, em 1943, o templo estava totalmente restaurado,
assumindo novamente o seu lugar no restrito número das
igrejas que Portugal deve preservar e honrar, uma vez
que constitui um verdadeiro canto do poema com que os
nossos grandes arquitectos do século XVI, colaboradores
e émulos de Camões, imortalizaram os incomparáveis
feitos dos Descobrimentos. Passaria
meio século até nova intervenção, a qual se verificou em
1998 pela mão do Instituto Português do Património
Arquitectónico. Face a alguma degradação, o templo
encerraria ao culto com vista a uma completa
restauração, sendo reaberto no ano seguinte.
Mais uma vez, o objectivo foi preservar uma majestosa
igreja, considerada Monumento Nacional e que merece uma
visita atenta, não deixando indiferentes os visitantes.
Trata-se, muito provavelmente, do primeiro local a
merecer uma visita na Golegã. |
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