PATRIMÓNIO TURÍSTICO

OS COMBOIOS

A construção do caminho-de-ferro em Portugal obedeceu, em primeiro lugar, à ideia de ligar o litoral e os respectivos portos fluviais e marítimos, à rede dos caminhos-de-ferro que, já então, funcionava na Europa. Existia nessa altura, a ilusão de captar grande parte do tráfego de mercadorias que enchiam os portos europeus. Foi por isso que se privilegiaram as ligações com Espanha, isto é, as linhas transversais que iam convergir directamente às linhas espanholas. Daí que a importância do Entroncamento em termos ferroviários tenha sido enorme quase desde o seu início. Era aqui que se iniciava a linha do Norte, ao entroncar intermediariamente com a linha de Leste da Companhia dos Caminhos-de-Ferro de Portugal, que por seu turno ligava Lisboa a Madrid, por Elvas e Badajoz.

 


"As modestas instalações que formaram a princípio a estação, com o seu primitivo núcleo de habitações, foram por assim dizer, a origem da povoação, pelo que o seu desenvolvimento se deve em grande parte, ao extraordinário trânsito de comboios que permanentemente se faz na estação do Entroncamento e à paragem que têm nesta, visto ser ela o ponto obrigatório do tráfego convergente a Lisboa e às regiões do Sul do Tejo, provenientes das linhas de Leste, da Beira Baixa, do Norte, do Minho e Douro, da Beira - Alta e das linhas afluentes e da Capital e daquelas regiões do sul, que se dirigem às referidas linhas, pelo que a C. P conseguiu, assim, não só vir a ser um dos elementos que mais contribuiu para a fundação da povoação e para o largo desenvolvimento que esta veio a alcançar, e tão justamente justificou a sua elevação a Vila do Entroncamento" (Jornal “A Hora”, Outubro de 1938).

Quando isto foi escrito, no ano de 1938, o Entroncamento possuía já 3 importantes divisões ou secções da C. P: Uma chamava-se “Material e Tracção”, outra era a “Exploração” e a terceira era designada de “Via e Obras”, o que tornava o Entroncamento, na maior estação ferroviária de Portugal. Tinha extensas linhas de estacionamento e reserva de equipamentos, de classificação e formação de comboios, oficinas modernas para grandes reparações e montagem de locomotivas, de fabrico e reparação de vagões, de preparação e creosotagem de travessas, do fabrico de "tirefonds" e parafusos e uma serração e preparação de madeiras, etc. Para alimentar de energia todo este complexo, havia uma central termo-eléctrica com 660 cavalos de potência e ainda vapor necessário para o funcionamento das oficinas de tracção e luz eléctrica para todas as dependências dos serviços ali instalados. Em consequência disso tudo, a população em 1932, elevava-se já a 6.000 habitantes. Nesse ano passou, naturalmente, à categoria de Vila no dia 21 de Dezembro.

Era considerada com razão, uma das terras mais prósperas do País. A própria Companhia de Caminhos-de-Ferro Portugueses investia então no seu embelezamento e até num relativo conforto, para os respectivos funcionários, construindo bairros de residências e uma importante escola-modelo que foi considerada uma das melhores do País. Foi nessa altura que se construiu a chamada "Vila Verde" ao longo da estrada da Barquinha a Torres Novas, com casas, então consideradas "alegres e higiénicas…”.

Outro bairro, também agradável, dava pelo nome de "Bairro Camões". Actualmente, ambos fazem parte da vizinha freguesia de Nossa Senhora de Fátima deste concelho do Entroncamento. Neste último ficava a escola primária para crianças de ambos os sexos, onde, à noite, funcionava um curso de formação primária para funcionários da C. P. Para o ensino técnico-profissional começara a funcionar, desde 1929, a Escola de Locomotivas do Entroncamento, uma iniciativa arrojada de Manuel Ferreira Godinho. Paralelamente, tinha-se construído um enorme Armazém de Víveres, capaz de abastecer todo o pessoal da C. P. e um Dispensário Anti-Tuberculoso que era considerado o melhor de Portugal.