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As tradições populares são expressões
culturais que, como tal, exorcizam os medos, revelam as
crenças, expandem as alegrias e os lutos que uma
comunidade partilha e, através dos quais, congrega e
identifica os seus nativos. Assim sucede com as
actividades humanas tradicionais que aqui mencionámos
brevemente, frutos de uma sabedoria acumulada durante
séculos e sinais da primordial relação desenvolvida
entre os recursos humanos desta terra e os seus
povoadores.
A presença árabe implementou novas técnicas de
irrigação, como a construção de poços equipados com nora
(é constituída por duas rodas dentadas, engrenadas uma
na outra, que se movem por tracção animal, puxadas por
um animal bovino, que caminha em redor do poço) ou
picota (é uma espécie de balança que, com o esforço
humano, leva o balde até ao fundo do poço e cujo peso da
água ajuda a voltar à superfície), meios de extracção de
água; e a construção de canais.
Em pleno pinhal, onde o combustível abundava,
construíram-se diversos fornos de cal, alguns dos quais
ainda subsistem, embora estejam votados ao abandono.
Nesses fornos apropriados, praticamente subterrâneos,
obtinha-se a cal, por cozedura de pedra calcária, à
temperatura de rubro cereja, entre 800º e 1.000º celsius.
A serração manual de madeiras e a moagem de cereais
(azenhas e moinhos de vento) foram actividades de grande
importância na economia e na cultura locais.
A matança do porco, de tradição muito antiga, mantém-se
até aos nossos dias, a nível particular; bem como os
trabalhos colectivos, como as mondas, as sachas, as
colheitas, as descamisadas e as vindimas, que se
realizam com a ajuda de amigos e familiares.
Danças e Cantares: Fazem parte da memória dos
mais velhos, os serões bem passados com as danças de
roda e em cadeia, as saias, as modas de “trocar o par”,
o vira “espanhol” (dança de 8 pares, em que se forma 1
quadrado grande constituído por 4 quadrados pequenos,
cada um com 2 pares que trocam entre si), a “porca
rabicha” (moda tradicional e típica da região, em que se
dão passos laterais e longitudinais, rodando em seguida)
e outras danças, com diferentes ritmos e desenhos
enquadrados no folclore da Beira Litoral.
Os bailaricos tradicionais, improvisados nos terreiros
das aldeias locais, decorriam durante as tardes de
domingo, marcados pelo som do harmónio ou da concertina,
instrumentos característicos deste folclore regional.
A maioria das modas hoje apresentadas pelo Rancho
Folclórico Cantares de Santiago foi-lhes ensinada pela
D. Maria da Soledade, que lhes permitiu reunir um
repertório muito interessante e completo.
Trajes Característicos: No decorrer da pesquisa
efectuada pelo Grupo Folclórico Cantares de Santiago,
recuperaram-se os trajes de Noivos, Domingueiros, de
Mercado e de Trabalho, masculinos e femininos.
A D. Maria do Carmo, antiga costureira residente no
lugar de Mogadouro, foi de grande ajuda, porque forneceu
informações precisas sobre os tecidos e os modelos
usados no despontar do século XX. Assim, a sua própria
filha, exímia costureira, confeccionou os trajes
femininos do Grupo. Ressurgiram, assim, as saias de
estamenha preta ou castanha, ou de baeta azul, com barra
de veludo; as blusas de pano branco, riscado ou em chita
de várias cores; os grandes lenços de lã ou chita; as
algibeiras de lã lisa; e os trajes de cerimónia com
coletes pretos de merino ou pano fino. As explicações
versaram os chapéus, os sapatos, os barretes, os botões,
os punhos, as pregas, os colarinhos, as fitas de ouro e
os utensílios de trabalho (canastra, cabaz, cântaro,
rodilha, fuso e roca).
Naturalmente, a realização deste trabalho passou por
dificuldades múltiplas, entre elas, a procura do armur,
do merino, da astracã, do serrobeco, da catrapinha, da
lã e do caraculo, que forçou a comissão instaladora do
Grupo a percorrer as lojas de têxteis mais recônditas de
Ansião, Soure, Miranda do Corvo, Castanheira de Pêra,
Coimbra e Porto. O resultado final foi o seguinte:
- o fato da noiva, constituído por saia e colete pretos
de armur ou merino, blusa de seda branca, meias de
algodão, saiote, calcinha e lenço de seda branca.
- o fato do noivo, formado por calça e colete de
“diagonal” pretos, camisa de linho branco com peitilho
de pano lavado, jaqueta de astracã, sapatos e chapéu
preto com fita.
- o fato domingueiro masculino, com calça e colete
pretos de lã, camisa branca de linho, chapéu preto de
aba, sapatos de sola e cabedal pretos, com atacadores e
de biqueira redonda.
- o fato domingueiro feminino, com saia de lã fina,
saiote branco, lenço de merino, meias de algodão e
sapatos pretos de cabedal, com presilha e botão.
- o fato de mercado masculino, formado por calça e
colete de cetim, camisa de riscas (várias cores),
sapatos pretos e chapéu ou barrete pretos.
- o fato de mercado feminino, composto por saia de
merino, blusa de chita ou riscado (várias cores), com
rendas no peitilho e punhos, lenço de merino ou lã e
sapatos de presilha.
- o fato de trabalho masculino, formado por calças de
serrobeco, camisa de linho grosso, barrete preto, lenço
ao pescoço e botas de cabedal, de cor natural, com
atacadores.
- o fato de trabalho feminino, constituído por saia de
lã grossa, saiote de flanela, blusa de chita de riscado
ou de flanela, lenço de lã ou chapéu, sapatos de cabedal
em cor natural, com presilha, ou tamancas ou os pés
descalços.
O calçado utilizado pelo Rancho também é tradicional e
foi manufacturado por artesãos sapateiros (já
reformados), que retomaram o seu antigo ofício, durante
cerca de uma semana, para efectuarem o pedido dos
elementos deste Grupo Folclórico. Nestes artefactos,
predominam, como antigamente, as solas, os cabedais e as
linhas.
Jogos e Brinquedos Tradicionais: De acordo com a
memória dos mais velhos, recuperaram-se os seguintes
jogos tradicionais:
O Jogo da Malha é disputado por duas equipas, compostas
de dois ou mais elementos, em que o objectivo é derrubar
um fito (pequeno marco de madeira), mediante o
lançamento de malhas de ferro forjado. A equipa
vencedora é aquela que perfizer primeiro 30 pontos. Este
jogo está bastante enraizado na região e, por isso, se
encontram, nas tardes de domingo e em dias festivos,
homens a executá-lo, habitualmente, no largo da
Freguesia. Na maioria das festas populares de Verão,
organizam-se torneios do jogo da malha.
No Jogo do Lenço, um dos elementos circula em torno da
roda formada pelos restantes e larga o lenço no chão,
atrás de um dos companheiros, sem que o mesmo se
aperceba, distracção que lhe valerá uma valente palmada.
Jogava-se durante a Quaresma, nos Largos das Igrejas ou
Capelas, em substituição dos bailaricos, que não se
podiam realizar nessa quadra religiosa. Outrora bastante
usual, perdeu expressão nas últimas décadas e,
actualmente, é raro assistir-se à sua execução.
Os Jogos de Cartas são muito comuns até aos nossos dias,
em especial, no período de Inverno. Tradicionalmente, o
jogo da Sueca é dos mais praticados, nesta região,
decorrendo nos Cafés e Tabernas, à noite e aos
fins-de-semana, bem como em torneios organizados pelas
Associações Recreativas.
O objectivo do tradicional Jogo do Cântaro ou do Galo
deve ser atingido por um participante, de olhos
vendados, munido de um pau, e consiste, respectivamente,
em quebrar um cântaro previamente pendurado ou matar um
galo, enterrado no chão com a cabeça de fora.
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