RESENHA HISTÓRICA

A freguesia de Santiago da Guarda, a maior e mais populosa do concelho de Ansião, pertence ao distrito de Leiria e integra-se na sub-região do Pinhal Interior Norte. Situada nas íngremes abas da serra de Sicó, perto da margem esquerda do rio Nabão, dista 7 quilómetros da sua sede concelhia e confronta, a norte, com a freguesia de Alvorge; a sul, com Pombal e Ansião; a nascente, com Ansião; e a poente, com Pombal e Soure. Com uma área de 42,5 quilómetros quadrados, é constituída pelos lugares habitados de Abrunheira, Alho, Alqueidão, Boavista, Cabeça Carvalhal, Carvalhosa, Casais, Casal António Brás, Casal de Arouca, Casal do Louco, Casal dos Valentes, Casal Galvão, Casal João Fernandes, Castelo, Chainça, Charneca, Estrada, Estradinha, Fazenda, Graminhal, Granja, Guarda, Junqueira, Lagoa Parada, Lapa, Louriceiras de Cima, Louriceiras de Santo António, Marquinho, Matos, Melriça, Mogadouro, Moita Negra, Moita Santa, Nogueiros, Outeiro, Pia Furada, Pinheiro, Pisoaria, Poço dos Cães, Santana, Santiago da Guarda, São Vicente, Sobreira, Soucide, Tarouca, Vale da Pia, Vale das Laranjeiras, Vale de Avessada, Vale do Boi, Várzea e Venda do Brasil.



O acesso a esta Freguesia faz-se mediante as seguintes vias: Caminho Municipal 1087, de Ansião a Santiago da Guarda; Caminho Municipal 1086, de Mogadouro a Santiago da Guarda; e Estrada Municipal 526, que faz a ligação entre Venda do Brasil, Santiago da Guarda e Ramalhais.

A fundação de Santiago é muito remota, como comprovam os vestígios arqueológicos aqui encontrados, nomeadamente, alguns machados e artefactos neolíticos (em Monte Alvão e nos lugares de Guarda e Moita Santa); além de alguma cerâmica, pedaços de vasilhas e restos de tegulae e imbrices, do período romano (no local do Poço do Carvalhal).

Na época de fundação da Nacionalidade, esta zona é referida, em carta de doação da Herdade do Alvorge ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, de D. Afonso Henriques, datada de Fevereiro de 1141. Neste documento, menciona-se, pela primeira vez, a povoação designada por “Façalamim”, que se localizava a sul do Alvorge, a partir do paralelo longitudinal de Junqueira. O topónimo, de origem árabe, provém de “Fahç al mir”, isto é, “campo do amir” ou “campo do príncipe”, e surgirá registado ao longo de vários séculos, até ser substituído, a partir de meados do século XVIII, pelo actual “Santiago da Guarda”. No ano de 1166, a denominação surgia sob a forma de “Fazalamir”.

Em Abril de 1191, D. Sancho I doou o dízimo que uma herdade local pagava à Coroa, ao Mosteiro de São Jorge de Coimbra, pela devoção que tinha àquele Santo.

A 8 de Dezembro de 1476, Pero de Sousa Ribeiro, senhor de Figueiró, filho de João Rodrigues de Vasconcelos e de D. Branca da Silva, recebeu carta de privilégio de couto e honra para a Quinta que possuía na Freguesia e para a feira de Moita Santa. Este documento instituiu o direito exclusivo daquela Quinta e a imunidade da referida Feira. Luís de Sousa e Vasconcelos, quarto alcaide-mor de Pombal, recebeu aquela Comenda, por carta datada de 14 de Março de 1597. Seguiram-se ainda outras honras e títulos até D. Manuel II, que os confirmou, já na posse da família Castelo Melhor.

Santiago da Guarda foi curato anexo à freguesia de Abiul, a cujo termo pertencia, passando depois a Freguesia independente, com o título de Vigairaria.

Em 1758, era Donatário da região, o Conde de Castelo Melhor. Segundo as Memórias Paroquiais, o Pároco local era da apresentação das Religiosas do Real Mosteiro do Lorvão, com um rendimento de dez mil réis e pé de altar.

Na época, além da Igreja Matriz, dedicada a Santiago, a Freguesia possuía as Ermidas da Senhora da Piedade, no Vale do Boi; de São João e de Santa Ana, no lugar do Pinheiro; de São Pedro, no Casal dos Nogueiros; de Santo António, nas Louriceiras; de Santa Bárbara, no lugar da Melriça; de Santa Apolónia e de São Vicente, no lugar da Moita Negra; e da Senhora da Moita Santa, no lugar do mesmo nome.

No ano de 1839, esta povoação integrou o concelho de Rabaçal e, posteriormente, transitou para o actual Município.

Santiago da Guarda orgulha-se das personalidades que, tendo nascido ou vivido no seio das suas terras, deram um importante contributo para o desenvolvimento do País e para o bem-estar da população.

É esse o caso da nobre família dos Vasconcelos, senhores de Figueiró, que aqui ergueram um magnífico Solar, na segunda metade do século XV, significativo exemplar da arquitectura civil medieva, hoje designado por Solar dos Condes de Castelo Melhor.

Vale sempre a pena recordar as histórias e as lendas que povoam o imaginário colectivo de uma comunidade, porque dão consistência a um passado comum, criando indestrutíveis laços de identidade e união entre as consciências individuais.

Segundo o que se sabe, no século IX, houve um importante movimento de culto a Santiago, ou São Iaco, porque, na Galiza, se pensava ter descoberto o túmulo daquele Apóstolo. No território hoje ocupado por Santiago da Guarda, passava então uma estrada romana que, do centro do País, seguia até Soure e muitos peregrinos tomavam esta via, para se encaminharem a Santiago de Compostela.

Nascida no contexto específico da Reconquista Cristã, a devoção a Santiago subsistiu durante as Idades Média e Moderna. Também as populações desta região se arraigaram muito a esse culto, acabando por incluir o nome do Santo no topónimo local e elegendo-o como Orago da Freguesia.

O segundo termo, “Guarda”, remete para a existência de um antigo posto de distribuição do correio, ou seja, de guarda da mala-posta.